Opinião

Mais para a esquerda ou mais para a direita?

A maioria das pessoas quer ouvir soluções, propostas, identificar-se com elas, deixando para depois a questão de saber em que gaveta ideológica se encaixam, se é que chega a ser assunto.

Poucas coisas entusiasmam mais os militantes e comentadores políticos do que discutir o posicionamento dos partidos: o partido deve estar mais à esquerda ou mais ao centro, mais acima ou mais abaixo, em concubinato ou em confronto com o partido do lado?

No meu partido, discute-se muito qual dos pilares ideológicos nos deve nortear, democracia-cristã, conservadorismo ou liberalismo, havendo quem se preocupe sobre se nos devemos dizer de centro ou de direita ou de centro-direita ou de direita e centro-direita. Nos outros partidos a discussão é parecida, com outras referências. No PSD, a eterna busca pelo posicionamento estratégico perfeito, historicamente legitimado, somos sociais-democratas ou não, somos de direita ou não? No PS, começando com o socialismo colocado na gaveta, passando pela terceira via e, agora, o fervor esquerdista, um debate constante sobre que tipo de socialismo mora no PS. No comentário político o tema também está presente, horas a debater se um partido se deve encostar à esquerda ou à direita ou não sair do centro, como se a política fosse xadrez.

Tudo isso me faz uma enorme confusão.

Nada tenho contra o rigor ideológico, atenção, logo eu que, com alguma facilidade, me caracterizo como liberal. Sucede que esse estilo de discussões peca pela abstração e ignora o papel e a função de um partido político que aspire governar. Tudo isto, no seu conjunto, afugenta pessoas, cavando ainda mais o fosso que as separa da política.

Começa por ser uma discussão abstrata. Ninguém define ou sequer se entende sobre o significado dos termos utilizados. Duas pessoas podem dizer-se de esquerda e querer dizer coisas distintas. Discutem-se posicionamentos relativos sem conhecer os conceitos em absoluto, e muitas das vezes os conceitos são propositadamente abstratos porque usados para atacar: a dificuldade dos candidatos ao PSD em demarcar-se de forma substancial da governação de Passos diz muito sobre a tal ausência de social-democracia de que durante anos se falou. Andar a recomendar que se esteja mais para ali ou mais para aqui quer, na maior parte das vezes, dizer coisa nenhuma, porque nunca concretizada.

Porque abstrata, esta discussão ignora o papel de um partido que aspira governar. Um partido não é uma associação de pensamento, abarca sempre um conjunto de sensibilidades, compatíveis mas nem sempre de acordo. Mais, um partido que procura governar não lida com contextos ideais, coerentes, prontos a receber a receita bacteriologicamente pura. Pelo contrário, numa realidade complexa, com desequilíbrios, os partidos têm a obrigação de encontrar respostas concretas, sensatas, pactuadas, para os problemas. Sem ideologia? Claro que não, isso nunca: inspirados nela, mas focados na resposta concreta e possível, o que implica uma ausência de estaticidade que choca com esses posicionamentos abstratos. Ser liberal convicto não me impediu de perceber que a minha governação teria de ser inspirada no liberalismo, como acho que foi e muito, mas não a sua decorrência escrava. Ou não teria conseguido fazer metade do que fiz.

E depois, esta discussão cria uma “cultura política hiperidentitária”, como lhe chamou o Francisco Mendes da Silva neste jornal, algo que o eleitorado não acompanha, assim se afastando da discussão e da militância. A maioria das pessoas quer ouvir soluções, propostas, identificar-se com elas, deixando para depois a questão de saber em que gaveta ideológica se encaixam, se é que chega a ser assunto.

Agora que o panorama partidário se reconfigurou, e se intensificou esta discussão identitária, comete erro sério o partido que quiser perder-se nessas derivas, ao sabor dos comentadores de plantão e de costas voltadas para as pessoas.

Advogado

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Opinião de Adolfo Mesquita Nunes
Fonte: Jornal de Negócios

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