Opinião

A propósito do Zé Diogo

Para alguma extrema-esquerda, só o povo poderá julgar Lula da Silva. Joana Mortágua escreveu a “crónica de um julgamento político”, Francisco Louçã denuncia que “as elites brasileiras, escravocratas e gananciosas, não admitem a intromissão de movimentos ou protagonistas populares (…)” e, do alto da sua cátedra revolucionária, Boaventura Sousa Santos levantou a voz para apoucar a intervenção da justiça brasileira – por acaso sujeita ao princípio da legalidade, dentro de limites constitucionais – que diz representar a “reação” das velhas “forças conservadoras e do imperialismo norte-americano”.

É extraordinário perceber como para lá de uma reciclagem mediática e oportunista da imagem, o BE se mantém bem preso às velhas amarras doutrinárias e totalitárias da UDP e do PSR que lhe deram vida. 43 anos após o PREC, não falta quem continue a defender que a lei não deve ser igual para todos. Sendo que no caso de Boaventura Sousa Santos – que em 1979 integrou o deprimente “Tribunal Cívico sobre a Reforma Agrária”, reunido na “Voz do Operário” para condenar sem direito de contraditório “o latifúndio” e exaltar “a legitimidade da reforma agrária” – arrepia confirmar que se envelheceu, não evoluiu a par do Mundo.

Há anos, durante a campanha para a presidência do Brasil, ficou célebre uma resposta de Lula da Silva: “O primeiro que eu vou mudar de concreto; nós vamos provar que você pode tranquilamente colocar corrupto na cadeia. (…) lugar de ladrão é na cadeia.” Ironicamente, quando em 2018 a justiça brasileira confirma a condenação de Lula da Silva a uma pena de prisão por crimes de corrupção, a extrema-esquerda portuguesa agiganta-se num revivalismo avesso ao princípio da separação de poderes, para reclamar que “o povo é quem mais ordena” e exigir que se transfira para as massas nas urnas a decisão do perdão. Isto é; para alguns políticos de Esquerda a justiça popular. Para os outros, sobram os juízes, os tribunais e a prisão. Não é de hoje.

Em setembro de 1974, Columbano Líbano Monteiro, proprietário rural de Castro Verde, foi assassinado à facada pelo trabalhador José Diogo. Em 25 de julho de 1975, a UDP promoveu um tribunal popular em Tomar que absolveu o camarada homicida e condenou a título póstumo a vítima, que considerou “saneado da face da terra”. Argumentava-se: “Para o direito capitalista não há exploradores e explorados, há apenas homens iguais perante a lei. Ora essa igualdade, pretensamente garantida pelas leis burguesas, é uma farsa, um logro, uma mentira”.

Pelo BE há saudades desses tempos.

DEPUTADO EUROPEU

Nuno Melo
Fonte: JN

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