Tem janelas que não fecham e amianto nos telhados. No inverno, os alunos têm de se cobrir com mantas e cachecóis durante as aulas. Diretor espera obras, ministério só fala de ampliação de balneários.

Pais e alunos da escola secundária do Restelo (a quarta escola secundária pública do ranking de 2016) estão preocupados com a falta de condições daquele estabelecimento de ensino de Lisboa, sobretudo agora no inverno, em que a falta de aquecimento e de isolamento nas salas tem obrigado os alunos a cobrirem-se com mantas e cachecóis durante as aulas.

As queixas multiplicam-se: há janelas onde sacos de plástico ou pósteres fazem o lugar do vidro, outras que não fecham bem e deixam entrar água; há coberturas de amianto nos pavilhões de aulas e no bar, e as aulas práticas de educação física têm de ser dadas em duas salas de aula contíguas — a parede que as separava foi demolida e a ‘sala dupla’ faz as vezes do pavilhão gimnodesportivo, que não existe.

Todos os anos, o tempo frio agrava o problema: das 46 salas de aula da escola, só “duas ou três” têm aquecedores, diz ao Observador o vice-presidente da Associação de Estudantes daquela escola, João Viterbo. Por isso, passou a ser comum os alunos levarem mantas e cachecóis para cobrirem as pernas durante as aulas.

João Viterbo, aluno do 11.º ano no Restelo, lamenta que a situação já nem o espante. “Pergunte por isto a um aluno que cá esteja desde o 7.º ano, como é o meu caso, e ele nem vai ter noção desta realidade. Já estamos habituados, para nós é o normal. Mas quando chegam alunos de outras escolas para aqui, a primeira coisa que dizem é que a escola é fria e não tem condições. Não podemos pensar que isto é o normal”, explica o aluno.

Admite mesmo que é habitual os alunos usarem casacos, mantas e cachecóis “para tapar as pernas com o colega do lado, ou para enrolar à volta do tronco“, tal é o frio no interior das salas.

A presidente da Associação de Pais da Escola Secundária do Restelo também confirma a falta de condições. “As janelas são um dos piores problemas. Somos nós, na Associação de Pais, que andamos a arranjar fechos para ver se é possível arranjar as janelas de forma a que elas fechem. Manter a temperatura numa sala daquelas é impossível. Se cá fora estão 10 graus, lá dentro estão cinco ou seis“, diz.

Amianto continua a ser problema

Para pais e alunos, o amianto nos telhados dos pavilhões continua a ser um dos maiores problemas da escola. Os telheiros exteriores, anteriormente feitos daquele material, já foram todos substituídos por estruturas novas. Mas os tetos dos pavilhões das salas de aula e do bar continuam não só a ser os originais, de amianto, como não há nenhuma cobertura adicional ou teto falso.

“As coberturas de amianto estão em contacto direto com quem lá anda e inclusivamente com a comida”, denuncia a responsável da Associação de Pais. “Quem faz todo o percurso ali está desde o 7.º ao 12.º ano sempre em contacto direto com amianto“, acrescenta João Viterbo.

A falta de condições naquela escola já não é novidade. Só este ano letivo já houve duas polémicas. Primeiro, com os professores de Educação Física, que fizeram greve às aulas práticas por falta de condições nos balneários. E no início do ano letivo, uma praga de ratazanas obrigou à intervenção da Junta de Freguesia de Belém.

A estes problemas juntam-se as mesas e cadeiras velhas. “Espetam-se farpas na roupa ou na pele“, explica João Viterbo. A sucessão de problemas levou a Associação de Pais a divulgar um vídeo com imagens da falta de condições da escola e a organizar uma petição pública a exigir a realização de obras no estabelecimento.

Diretor espera obras ainda este ano

O diretor da Escola Secundária do Restelo, Júlio Santos, admite que “é evidente a necessidade de recuperação” nas instalações e garante que “já há a promessa, por parte do Ministério da Educação, para que ainda em 2018 se dê início à recuperação dos pavilhões, no que toca às janelas, caixilharia, estores e substituição da cobertura”.

Segundo o diretor da escola, a promessa do ministério é que as obras no primeiro pavilhão estejam concluídas ainda durante o ano de 2018. Essa obra constituirá “o modelo de intervenção a ser utilizado nos outros pavilhões”, explica ainda Júlio Santos ao Observador.

A escola, detalha o diretor, chegou a ser incluída na fase 3 das obras de reabilitação financiadas pela Parque Escolar, mas o projeto foi cancelado e agora o modelo é outro. “O que estava previsto antes é que a Parque Escolar vinha aqui e criava infraestruturas novas, do zero. Agora é diferente, esse registo já não existe. A intervenção vai ser faseada.”

Relativamente à questão do frio, Júlio Santos explica que é “impensável” instalar aquecedores ou ar-condicionado em todas as salas, “até porque nem sequer há capacidade em termos de potência elétrica para aguentar esses aparelhos” e porque as salas “não têm isolamento nas janelas“, o que inutilizaria o aquecimento.

O diretor recorda que a escola foi construída “logo depois do 25 de Abril”, pelo que não foi preparada para “nada do que existe hoje”. “Não temos infraestrutura elétrica para responder a uma exigência dessas. Até temos estado a substituir lâmpadas fluorescentes por LED, para aumentar a potência disponível. Mas basta olhar para as salas e para a quantidade de computadores que aqui existe. Há quarenta anos não havia computadores, ninguém pensava que era preciso ter computadores na escola”, comenta Júlio Santos.

A estes problemas junta-se a “sobrelotação” da escola, que está “no limite de turmas”, não havendo “capacidade para receber mais ninguém”, admite o diretor. “Estas são as condições que conseguimos proporcionar e as pessoas sabem as condições que nós temos“, lamenta.

Ministério só confirma obras nos balneários

Relativamente às duas polémicas que marcaram o arranque deste ano letivo, Júlio Santos diz que já estão resolvidas. Quanto à praga de ratazanas, “houve uma intervenção de empresas especializadas em conjunto com a câmara, quer dentro da escola quer na zona envolvente”, e a situação foi normalizada. “Devido à seca, os níveis de água estavam mais baixos e foi isso que provocou a praga, segundo me disseram dos serviços”, explicou o diretor.

Já no que toca à questão dos balneários, que motivou a greve dos professores de Educação Física, Júlio Santos destaca que “já houve uma primeira intervenção do ministério, em que os balneários foram recuperados, e está já prevista uma intervenção de ampliação”.

O Observador contactou o Ministério da Educação para esclarecer se a tutela está a par das condições daquela escola, para saber quais as intervenções que estão planeadas para breve e qual o valor do investimento em causa. Fonte oficial confirmou apenas que decorreu em 2017 “uma intervenção na Secundária do Restelo com vista à recuperação do bloco de balneários” e que, “durante o ano de 2018 está prevista a ampliação destes mesmos balneários da escola”. A mesma fonte não referiu nenhuma intervenção além desta.

Com uma média de 12,4 nos exames nacionais, a escola ocupava o 41.º lugar no ranking de 2016, sendo a quarta escola pública mais bem posicionada do país — no que diz respeito ao ensino secundário.

Fonte: Observador

Comentários