Um presidente de partido capaz de afirmar que «o futuro não se faz de história» não é, certamente, nem ignorante nem ideologicamente marcado. E talvez seja essa a característica mais importante a preservar no PSD: o reformismo; o não desistir de pensar futuro.

Não sou amigo de Passos Coelho. Mal o conheço. Não almocei com ele, não jantei com ele, os meus filhos não passaram uma tarde a seu cargo. Critiquei o seu Governo no que acreditei justo criticar o seu Governo, critiquei a Oposição por si liderada através do mesmo critério, e escrevi amplamente acerca da sua personalidade política – que é aquela que interessa a este texto.

Conheci-o pessoalmente numa feira em Penafiel, na qual foi tremendamente cortês. Vi-o de perto, junto das pessoas, até com algum humor. Brincando, respondeu a um militante que lhe perguntava porque havia ganho as eleições para «depois dar o poder a outro».

«Dar? Eu? Toda a gente sabe que eu não dou nada a ninguém!», tornou o então presidente do PSD.

Rimo-nos todos.

Nunca me pareceu que vivesse mal com o seu legado e tentar lê-lo através da lente que usualmente serve a análise política é um erro. Não por ele fugir ao facto de ser um político, mas por se tratar de um político pouco comum; fora do normal. O termo que um próximo (e não inicialmente próximo) empregou quando mo descreveu foi «excecional». E ele é, de facto, uma exceção. Foi o único político com que conversei enquanto jornalista – e já foram alguns – que se estava absolutamente nas tintas para a minha opinião; se gostava mais ou menos dele e do que pensava. Sem arrogância, não concedeu em qualquer tópico ao longo da entrevista, que não era gravada, e falou com bastante firmeza sobre aquilo em que acredita. Naquilo em que ele acredita.

Isso, para infeliz espanto de alguns, é coisa rara na política de hoje. E Passos sai sem disso abdicar.

A alegada «azia» com que o catalogaram por não ficar após vencer eleições ficou mais clara para mim depois dessa conversa. Não era «azia» nenhuma.

Passos estava verdadeiramente incomodado, mas com o facto de o Governo atual não ambicionar qualquer reforma, não ter qualquer horizonte além do dia seguinte, não preparar nada além da conjuntura. Com o país que poderia estar melhor, mais próspero, mais seguro e mais justo.

A esquerda, nos seus oito anos como líder do PSD – e em especial nos últimos dois – tentou colar-lhe esses dois rótulos: a «azia», que não era mais do que coerência, e uma suposta ‘ignorância’ intelectual com tendência para o fanatismo – que é afinal uma característica dessa esquerda…

Um presidente de partido capaz de afirmar que «o futuro não se faz de história» não é, certamente, nem ignorante nem ideologicamente marcado.

E talvez seja essa a característica mais importante a preservar no PSD: o reformismo; o não desistir de pensar futuro.

A saída de Passos – inseparável do sucesso de António Costa – representa, por isso, uma questão aos portugueses.

Se desejam governos resumidos à inércia como perpétuo modo de vida ou se ambicionam governos eleitos para mais do que isso.

Eu, caro leitor, sei qual é a minha resposta. E deixo também claro aos amigos que leram este texto e me perguntaram se não receio elogiar Passos Coelho: daqui a menos tempo do que esperam, o raro vai ser quem não o faça.

Opinião de Sebastião Bugalho
Fonte: SOL

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