O mecenato da família Soares dos Santos é bom exemplo de como a responsabilidade social deve ser encarada pelas empresas e pelos empresários.

A semana passada, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) comemorou duas efemérides. Por um lado, fez nove anos de existência. Por outro, atingiu a venda de um milhão de livros. A Fundação nasceu em 2009, fundada por Alexandre Soares dos Santos e família, para estudar os grandes problemas nacionais e levá-los ao conhecimento da sociedade. O objetivo da FFMS é o de promover o estudo e debate informado e fundamentado dos grandes problemas nacionais e internacionais.

Assim, “a Fundação publica livros e elabora estudos, sobre temas relevantes para a sociedade (…); organiza encontros e debates onde reúne e dá a voz a especialistas nacionais e internacionais; e cria, compila e difunde dados sobre Portugal e a Europa através de várias plataformas”.

É de facto uma grave lacuna de Portugal. Primeiro, a maioria do espaço público de debate estar focado em questões e assuntos sem qualquer interesse, do qual a discussão sobre os casos e escândalos do futebol é o mais absurdo. Segundo, mesmo quando se discute assuntos verdadeiramente relevantes para o país, normalmente essa discussão é feita de forma superficial, sem qualquer rigor ou fundamento científico, por pessoas que normalmente não têm qualquer qualificação relevante na área em questão.

Basta ver que boa parte das pessoas que escreve nos jornais escreve sobre todos os assuntos: de Finanças à Europa, passando por política internacional, saúde, segurança social e muitas vezes, o inevitável futebol. São os “tudologistas”, os especialistas em tudo, que obviamente não “sabem nada”. Mas que escrevem em diversos jornais e participam em diversos programas semanais (onde arranjaram o tempo?).

As obras da FFMS tem um elevado valor. Começo pela coleção de ensaios. À exceção do que foi escrito pelo autor destas linhas, os restantes são de enorme qualidade. Mas são sobretudo um veículo de informação rápida, acessível e barata. Escritos por autores que conhecem profundamente os temas, são no entanto muito acessíveis para o leitor comum, não especialista no tema.

Apesar de ser injusto para com os restantes autores, não consigo deixar de salientar o livro sobre “pseudociência” do David Marçal, o livro sobre o Portugal rural, do Henrique Pereira dos Santos, o livro “A universidade como deve ser”, do António Feijó e do Miguel Tamen; o ensaio sobre Turismo da minha colega de opinião do ECO, a Vera Barros, o livro sobre o sistema político Português, do Professor Braga da Cruz, o livro sobre o Euro e o crescimento, do meu amigo Pedro Brás Teixeira, o livro sobre o Parlamento, do Jorge Fernandes, o livro sobre migrações do meu amigo Gonçalo Matias, o de investimento públicos do Marvão Pereira, o de justiça do Nuno Garoupa, o de Finanças Públicas do meu colega Trigo Pereira, o de Economia e moral do Vítor Bento, o de Educação do meu amigo David Justino. E, por último, um livro muito interessante sobre o mercado de trabalho do Doutor Centeno.

Os ensaios visam informar o grande público, o que é um serviço muito meritório, e uma excelente ideia, permitindo que pessoas que não são especialistas numa área possam ter um mínimo de conhecimento sobre um tema.

Já os estudos da FFMS, num total de 45, são outro bom exemplo do apoio à investigação, de forma a conhecer a fundo os problemas nacionais e as soluções possíveis.

Há um outro aspeto desta fundação que é menos conhecido do grande público, mas que merece uma referência. Quiçá mesmo, deveria ser seguido pelas fundações e instituições do terceiro setor. É que a família que fundou a FFMS não doou um capital inicial à instituição. Normalmente, associamos a criação de uma fundação com um “lump sum” de capital. A partir desse donativo, a fundação gere os ativos, e em função dos rendimentos que obtém dessa gestão, exerce o seu objeto social. Este modelo “tradicional” tem três inconvenientes:

  1. Coloca a fundação a fazer algo (gestão de portfolio) que não é o seu objeto social.
  2. Faz com que parte dos recursos tenha de ser alocada a essa gestão dos ativos, o que naturalmente retira meios à sua missão.
  3. Quando os ativos se desvalorizam (e com a crise financeira de 2008, muitas instituições sociais perderam parte do seu valor de ativos financeiros), pode colocar em risco a manutenção do nível de serviços prestados.

O que a família Soares dos Santos faz é estabelecer acordos a 10 anos para o financiamento da fundação. Desta forma, a FFMS apenas se foca no seu objeto social, atrás descrito. As 27 pessoas que lá trabalham, e todos os colaboradores pontuais, dedicam-se aos livros, estudos e debates.

Atribuir um valor anual para o financiamento da FFMS tem assim duas vantagens:

  1. É um valor de financiamento em função de um determinado “nível de serviço”, o que obriga a que a fundação se foque na sua missão e cumpra os objetivos.
  2. Esse financiamento provem dos lucros do grupo, ou seja, não geram qualquer tipo de encargo adicional, que a gestão de ativos por parte de uma fundação obriga. Além disso, ao estabelecer planos a 10 anos, permite a quem gere a fundação, ter previsibilidade e gerir no médio e longo prazo.

Mas, além da FFMS, a família Soares dos Santos foi a principal mecenas do novo campus da Nova SBE em Carcavelos, dando o nome à biblioteca (informações dizem ter financiado metade do projeto). Este é um projeto da Nova de criar um campus universitário ao nível do que de melhor se faz no mundo. Apesar de estar na “concorrência”, entendo que quanto mais as escolas portuguesas se internacionalizarem, estiverem nos “rankings” internacionais e forem globais, mais o país beneficiará dessa excelência, quer para os nossos alunos, quer a atrair os melhores alunos de todo o mundo.

Não tenho nenhuma ligação à família Soares dos Santos (nem sequer os conheço pessoalmente). Mas são um bom exemplo de como a responsabilidade social deve ser encarada pelas empresas e pelos empresários.

Opinião de Joaquim Miranda Sarmento

Fonte: ECO

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