O país chora a morte do Pinhal de Leiria, mas há actores que prosperam com a desgraça.

A 15 de Outubro ardia a quase totalidade (85%) do Pinhal de Leiria, um dos maiores patrimónios naturais de Portugal. O incêndio — garantem as autoridades — teve origem em mão criminosa de incendiários. Mas foi muito mais do que isso. Os incendiários tiveram “cúmplices” poderosos e bem identificados: a Guarda Nacional Republicana, os sucessivos ministros da Administração Interna, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e os consecutivos tutelares das pastas do Ambiente e da Agricultura. O nível de cumplicidade das autoridades com a destruição do Pinhal faz do Estado português também co-autor deste acto criminoso.

O Pinhal constitui desde sempre um exemplo de ordenamento, de crescimento harmonioso, dispondo de um sistema eficaz de prevenção de incêndios. Dividido em mais de 340 talhões, separados por corredores de areia, com a limpeza de mato feita regularmente — a ignição do fogo era improvável e, nessa eventualidade, a propagação contida. A par deste ordenamento, o Pinhal dispunha de um sistema de vigilância permanente, composto por um corpo reduzido e competente de guardas que cumpriam a sua missão a partir de várias torres de vigia. Os incêndios eram inexistentes ou raros. Foi graças a este sistema de gestão do Pinhal e de vigilância apertada aos fogos que se evitaram consequências mais gravosas quando, em 2003, um incêndio consumiu 2500 hectares do pinhal.

Em 2005, o governo de José Sócrates decidiu extinguir o Corpo Nacional da Guarda Florestal e integrar os seus profissionais na GNR. A GNR assumiu o controlo das torres de vigia do Pinhal, onde colocou placas resplandecentes a atestar a identidade do novo proprietário, mas retirou gradualmente os recursos humanos afectos à vigilância. Este foi o primeiro crime que o Estado português cometeu contra o Pinhal.

A maior iniquidade pública, contudo, estava a ser cometida silenciosamente. Os talhões que haviam ardido em 2003 ficaram completamente ao abandono. Não foi limpo o mato, apesar de terem sido adquiridas máquinas para o efeito. Essas máquinas ficaram armazenadas, sem uso, intocáveis e abandonadas, até 2017! Cresceu o mato em vários talhões, as autoridades negligenciaram o Pinhal, nada investiram. Os vários milhões de euros que o Pinhal anualmente rendia, com a venda de madeira, eram desviados para outros fins. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (e os seus antecedentes) desprezou o Pinhal, sugando-lhe os recursos.

Em Outubro de 2017, no final de um Verão seco, com o matagal a invadir, por dentro, o Pinhal de Leiria, um fósforo bastaria para destruir toda a riqueza criada ao longo de séculos. Deflagrado o incêndio do Pinhal em 15 de Outubro, a destruição total era iminente: o principal combustível deste fogo de 2017 é formado pelos talhões abandonados na sequência do incêndio de 2003. Além de que nem sequer havia nesse dia meios de combate, pois os bombeiros do concelho (Marinha Grande) tinham ido socorrer os seus colegas no interior centro do país (Penacova, Sertã, Arganil, Lousã, Seia, Gouveia…), onde já havia perda de vidas humanas. Para os incendiários, o dia era perfeito para a perpetração do crime. E assim se assassinou o Pinhal de Leiria.

Quem ganha com esta desgraça? Desde logo, quem ficar com a madeira a preços reduzidos. Mas também quem a armazenar beneficiando até de subsídios do Estado (três euros por tonelada); quem a comercializar, a quem o Governo garante também um apoio financeiro de quatro euros por tonelada; e quem a transportar a partir do entreposto de transporte de madeiras do Louriçal, nas imediações. O país chora a morte do Pinhal de Leiria, mas há actores que prosperam com a desgraça. Que envolvimento terão estes beneficiários no crime? Quem serão os mandantes dos incendiários? Só as autoridades judiciárias nos poderão esclarecer. Mas o certo é que uma conspiração bem organizada para destruir o Pinhal de Leiria não faria melhor (ou pior!) do que isto: retirar a vigilância, permitir que o matagal crescesse durante 14 anos, esperar um Verão quente e seco, desviar os bombeiros para o interior do país — é o plano perfeito para destruir o Pinhal e ficar com os seus despojos ao desbarato.

Opinião de Paulo Morais
Fonte: Publico

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