Não se aguenta a eterna superioridade moral daqueles que só sabem chamar fascistas aos outros.

Nós podemos parecer muito moderninhos, mas ainda temos incrustado em nós um pensamento pré-moderno – as pessoas perante a lei são todas iguais, mas depois achamos que umas são mais iguais do que outras. Lula da Silva foi condenado por corrupção em primeira instância, foi condenado em segunda instância (por unanimidade), o seu habeas corpus foi recusado no Supremo, e ainda assim a gritaria em face da sua prisão atinge níveis incompreensíveis entre pessoas que dizem nutrir grande respeito pelo sistema de Justiça (mas só em abstracto) e uma grande devoção pelos pesos e contrapesos do sistema democrático (mas só em teoria). Como no velho tempo das Ordenações, para o mesmo crime deseja-se que exista uma pena para pajens, uma pena para escudeiros e outra para fidalgos.

E Lula da Silva, claro está, é o fidalgo bondoso da esquerda brasileira – e da esquerda portuguesa também. O heróico Lula – admitem os que gostam de se fingir ponderados – até pode um dia vir a ser preso, mas ontem não era um bom dia, hoje não é possível e amanhã não dá jeito. Lula, acima de tudo, não merece prisão, porque tirou milhões de brasileiros da pobreza. Um raciocínio lógico que aguardo ansiosamente por ver aplicado a Duarte Lima – talvez ele nem sequer deva ir a julgamento pela morte de Rosalina Ribeiro tendo em conta a generosidade imensa que sempre dedicou ao Instituto Português de Oncologia. Na última Quadratura do Círculo ouvi Pacheco Pereira dizer (juro!) que da direita esperava-se que fosse corrupta, mas que da esquerda se esperava melhor. Lá está: para o mesmo crime deveria talvez existir uma pena para o corrupto de direita (pesadíssima), outra para o de centro (moderada) e uma outra para o de esquerda (nenhuma, de preferência).

Dirão os meus simpáticos leitores pró-Lula: e Michel Temer não deveria estar também a ser julgado? Deveria, com certeza. Mas aí o que não funcionou foi a política brasileira, que bloqueou esse julgamento – não foi a justiça. Que o Congresso é corrupto da primeira à última fila já todos sabemos. Só que a justiça não se exerce por distribuição ideológica. Lá por Temer não estar preso, não significa que seja injusta a prisão de Lula. Tal como não é por haver muitos criminosos à solta que passa a ser indecente a existência de criminosos detidos. Aquilo que não se aguenta é a eterna superioridade moral daqueles que só sabem chamar fascistas aos outros. Sim, eu sei o que foi a ditadura militar no Brasil e conheço bem os perigos dos Bolsonaros que por lá pululam. Mas as mais bárbaras declarações de desrespeito constitucional têm sido feitas pelos apoiantes de Lula e pelos políticos do PT.

Essas declarações derivam precisamente da falta de sensibilidade para a questão da corrupção, que sendo um crime cego a preferências ideológicas continua a ser diferentemente valorizado consoante a cor política do corrupto. Eu percebo que isso no Brasil seja uma tentação – já que todos são corruptos, é natural que as pessoas prefiram os seus corruptos aos corruptos dos outros –, mas compreendo mal que esta postura seja importada para Portugal, onde é suposto haver diferenças entre o Palácio de São Bento e o do Planalto. O resultado está à vista: andamos sempre a resmungar contra supostos corruptos e a encher as redes sociais de indignação, mas depois somos pateticamente tolerantes com as leis que permitem um sem fim de recursos e com políticos que andaram anos a roubar-nos, só porque um dia votámos neles.

João Miguel Tavares

Fonte: Publico

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