Na primeira hora de aperto ético, o partido que fez carreira a tentar provar que era diferente dos outros comportou-se como um partido banal.

Para a direita portuguesa, o Natal chegou em Julho. Desconfio que para a esquerda não-bloquista também. Foi para casos como estes que os alemães inventaram a palavra “schadenfreude” – a alegria perversa que sentimos com certas desgraças alheias. Nem nos sonhos mais optimistas de um liberal lusitano se poderia prever que a sigla BE pudesse um dia confundir-se com Burgueses Especuladores. Reparem: não foi só aquilo que Ricardo Robles fez, nem as desculpas esfarrapadas que arranjou (a minha favorita é aquela em que ele garante que a intenção original da irmã era vir para Lisboa viver num apartamento de 41 metros quadrados depois de ter investido um milhão de euros a dividir um prédio em 11 mini-fracções com 11 cozinhas e 11 casas de banho). A negociata de Robles é, sem dúvida, espantosa, e daí o seu sucesso mediático. Mas ainda mais divertido foi a reacção de gente como Mariana Mortágua, Francisco Louçã ou Catarina Martins.

Que um bloquista um dia metesse à grande o pé na poça, era apenas uma questão de tempo. Que o estado-maior do Bloco saísse em sua defesa de forma tão desastrada, é realmente surpreendente. Ricardo Robles vai custar muito caro ao partido por ter atrasado três dias o seu pedido de demissão. Aquilo que o Bloco acaba de perder vale mais do que 5,7 milhões de euros – o partido que fez carreira a tentar provar que era diferente dos outros, na primeira hora de aperto ético comportou-se como um partido banal. Mariana Mortágua, na SIC Notícias, parecia Cassete Carvalhas, repetindo um mantra defensivo de modo deprimente para alguém com a sua inteligência. Francisco Louçã referiu-se à polémica como “uma forma de entretenimento de fim de Julho”. E Catarina Martins, à porta do acampamento do Bloco, teve a mais estapafúrdia reacção de todas: pôs as vestes da indignação, pediu emprestada a José Sócrates a palavra “infâmia”, e chegou até a falar numa “campanha de difamação”. Parecia uma secretária-geral do PS. Ou do PSD. Ou do CDS. No último fim-de-semana, o Bloco aderiu oficialmente ao PNEC – Processo de Normalização em Curso. Passou a ser um partido como qualquer outro no campeonato das desculpas esfarrapadas.

Uma dessas desculpas interessa-me particularmente – o argumento da conspiração: o Bloco estaria a mexer nos interesses imobiliários instalados, e por isso alguém soprou a notícia do prédio milionário. Catarina Martins é bem capaz de ter razão. Acho até altamente provável que a notícia tenha sido passada por alguém da câmara que seja inimiga de Robles ou do Bloco. Mas isso só dá razão àqueles que consideram politicamente inaceitável o seu comportamento. É exactamente por este tipo de notícia poder ser divulgado com facilidade, destruindo a reputação de um vereador enquanto o diabo esfrega um olho – como veio a acontecer –, que Robles jamais poderia ter-se colocado em semelhante posição.

Expliquemos a cabala a Catarina: ela só existe porque o vereador do Bloco, que ainda por cima é decisivo para o PS ter maioria absoluta na câmara, se pôs a jeito para ser facilmente chantageado. Se tu não fazes isto, então eu conto aquilo. Talvez por estar pouco habituada a lidar com este tipo de situações, Catarina Martins cometeu um erro colossal ao reagir como reagiu. Não conseguiu salvar Ricardo Robles, deu cabo da sua credibilidade e comprometeu para sempre a superioridade moral do Bloco de Esquerda. E a superioridade moral é assim como a virgindade: uma vez perdida, nunca mais se recupera.

João Miguel Tavares
Fonte: Publico

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