Qual o impacto de dúzias de turistas no Sabugal? E os residentes no Sabugal já se pronunciaram sobre os alojamentos turísticos ali criados? Ou o que é mau na Madragoa, em Lisboa, é bom no Sabugal?

«A coordenadora do BE fundou a Logradouro Lda. com o marido há quase dez anos e foi sócia-gerente da empresa até final de 2009, altura em que assumiu funções como deputada em regime de exclusividade. Atualmente, a empresa explora quatro empreendimentos turísticos e uma unidade de alojamento local no concelho do Sabugal, distrito da Guarda. A visão de Catarina Martins é a de que esta atividade representa “turismo em espaço rural” e pode ajudar a fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país, ao contrário do alojamento local massificado e desequilibrado nas grandes cidades, que acentua o fenómeno da gentrificação, explicou ao ECO fonte oficial do partido.»

É o calor a chegar e o dicionário do “esquerdês” a acrescentar-se: a esquerda não investe e muito menos o faz para ganhar dinheiro, a esquerda “luta contra” “promove”, “empenha-se numa causa”, No caso, Catarina investiu para “ajudar a fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país“. Deixemo-nos da prosa poética do costume e vamos a contas e a factos: como toda a gente que não faz caridade ou por razões obscuras precisa de esbanjar dinheiro, Catarina Martins investiu para ganhar dinheiro. Que esse seu investimento possa ajudar a “fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país” é uma possibilidade que eu por sinal subscrevo e apoio. Mas Catarina Martins sabe bem que podemos alinhar já aqui dois ou três argumentos contra esse investimento. Por exemplo, qual é o impacto de uma dúzia de turistas no dia a dia do Sabugal? Que ruído fazem eles? Quanto lixo produzem? Não lhe parece que os residentes deviam poder pronunciar-se sobre os seus alojamentos? Já imaginou choque com o quotidiano local? O que será para os residentes serem confrontados com gente com hábitos e idiomas que desconhecem por completo? Ou o que é mau na Madragoa, em Lisboa, é bom no Sabugal? No sentido do esclarecimento destas e doutras dúvidas recomendo vivamente aos leitores que passem os olhos pelo site afecto ao BE o Esquerda.net onde se lêem pérolas como esta: um dos expoentes do “uso alienado do tempo livre é o turismo, já que muitas vezes os “pacotes de turismo” são organizados por empresas com objetivo de lucro. A pessoa compra um desses pacotes para tentar “descansar” e não pensar no seu próprio emprego, ou seja, é uma restauração da mão de obra para que esta se acalme e não tenha doenças emocionais, podendo voltar a trabalhar após alguns dias de descanso.”

Em que ficamos: na versão do turismo.“tempo livre alienado na sociedade capitalista” em que “acabamos a consumir produtos da indústria cultural de maneira também alienada» como diz o Esquerda.net ou pelo contrário o turismo pode “ajudar a fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país” como declara agora o BE para justificar os investimentos de Catarina Martins?

Na verdade, a explicação aparentemente singela do BE sobre a bondade dos investimentos de Catarina Martins que ajudam a “fixar habitantes e a combater a desertificação em regiões do interior do país” versus os investimentos maus no “alojamento local massificado e desequilibrado nas grandes cidades” é um espelho não do turismo mas sim da falácia em que se sustenta a oligarquia marxista. Ao contrário do que numa versão bondosa dos factos se possa crer não há contradição alguma entre a Catarina a ideóloga-mediatica que procura aparecer nas televisões diante do povo e a Catarina empresária que aposta nos nichos para clientelas diferenciadas. Ambas, as clientelas diferenciadas e Catarina nas suas diversas versões, abominam o povo. É aliás com um ar de indisfarçável fastio que as clientelas diferenciadas — o que é o BE senão uma clientela urbana diferenciada? — e Catarina Martins pronunciam expressões que parecem retiradas de um folheto turístico dizendo mal da concorrência: “alojamento local massificado e desequilibrado nas grandes cidades“. É muito povo, não é?

O povo realmente não percebe que devia estar em casa a desconstruir a masculinidade tóxica ou a fazer “trabalho reprodutivo” (recomendo vivamente a leitura deste dossier no site Esqueda.net) e nas empresas a declarar que a propriedade é roubo. Claro, o povo pode aparecer para chorar e aplaudir como fez no Rock in Rio. E depois cumprir o seu papel de pano de fundo indispensável à demagogia marxista: aquela em que tudo é feito em nome do povo mas em que o povo não tem lugar.

Fonte: Observador

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *