Carta aberta de um venenoso a Judite de Sousa.

A Judite Sousa escreveu no seu blog em defesa do agora ex-vereador da Câmara de Lisboa, Ricardo Robles, que “com tanta inveja à solta, soltaram-se os venenos que por aqui e ali vão pairando”.

Reduzir a indignação dos últimos dias a simples “veneno” como se Ricardo Robles, nas suas palavras “um jovem político bem preparado”, fosse a vítima, é a perfeita demonstração de um dos maiores problemas deste país: não é aceitável criticar os outros, especialmente se forem políticos e principalmente se quem critica não o for. É logo “ridículo” ou “venenoso”.

Sabes Judite, eu não quero saber se Ricardo Robles é jovem. Eu também sou jovem. Sabes Judite, eu nem quero saber se ele é do Bloco de Esquerda. Eu ataco hipocrisia e se isso faz de mim venenoso então não me importo nada de o ser.
Se em Portugal as cobras são a razão contra um grupo de “ratos” sem escrúpulos nem princípios na atividade política, então eu não me importo de ser a cobra venenosa.

Se ser venenoso significa atacar um “jovem político bem preparado” que conduziu uma campanha contra a especulação, mas que afinal também ele é um especulador, então eu sou venoso.

Se ser venenoso significa criticar uma estrutura partidária conhecida por se mascarar de barricada contra o capital e o alojamento local, mas que afinal até a própria líder, Catarina Martins, é dona de uma participação numa empresa de alojamento local que explora quatro empreendimentos turísticos, então eu não me importo de ser venenoso.

Se ser venenoso significa expor o partido cuja a líder um dia disse que “só com mais mulheres é que os partidos e os órgãos políticos ficam mais parecidos com a sociedade… a diversidade de representação torna a política mais próxima da vida real”, então eu sou o mais venenoso que existe. Qual o problema? É que Catarina Martins escolheu Manuel Grilo, terceiro da lista do Bloco de Esquerda em Lisboa, passando por cima do segundo lugar, uma mulher. A lei da paridade serviu apenas para o politicamente correto.

Se ser venenoso significa mostrar a hipocrisia de pessoas como Mariana Mortágua, tantas vezes o rosto contra os privados, mas que se doutorou em economia na Universidade (privada) de Londres, então eu sou venenoso.

Se ser venenoso é o adjetivo para alguém que escreve uma resposta a uma jornalista que apenas defendeu Ricardo Robles para o convidar a fazer uma entrevista com ela, então eu sou venenoso. Escreveu no seu blog que “ele terá de comunicar e só será ou não eficaz se o fizer numa entrevista televisiva”.
No fundo, a Judite não quer saber se ele foi ou não hipócrita. Não quer saber do senhor de 60 anos que ele despejou, talvez mesmo antes de atender a uma conferência sobre os “rostos dos despejos”. Não quer saber dos cinco trabalhadores que perderam o emprego depois desse despejo, talvez mesmo antes de segurar um cartaz numa manifestação contra a precariedade. Não quer saber das pessoas que ele e os seus colegas de partido enganaram, quando se infiltraram nas manifestações e nos eventos das vítimas da especulação. Para si, pelos vistos, essas pessoas sãos as cobras venosas. Quem se indigna com a continuidade das ideias e a regressão das ações é para si “venenoso”.

Prova apenas querer saber das suas audiências. O verdadeiro veneno é a mensagem populista que o Bloco de Esquerda sempre carregou. Eles só estão a provar do próprio veneno.

Ao contrário da Judite, eu quero saber dessas pessoas porque talvez um dia possa ser uma delas. Não sou apresentador de telejornal ou vereador de uma Câmara Municipal. Se isso faz de mim venenoso, então que o seja sem qualquer receio.

Posso dizer que mais vale ser venenoso que militante do Bloco de Esquerda.

Tenho dito.

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